AgSafe usa IA para tentar reduzir mortes de abelhas nas pulverizações
A AgSafe, startup criada em 2020 em Florianópolis (SC), desenvolveu uma plataforma baseada em inteligência artificial proprietária para antecipar pulverizações no campo, identificar áreas sensíveis e alertar apicultores próximos antes das aplicações. Batizada de Coex.AI, a ferramenta digital é a aposta da agtech para reduzir as mortes de abelhas sem comprometer a eficiência da produção, conforme informações da empresa em entrevista ao AgFeed.
O CEO e cofundador da AgSafe, Maicon Romera, resume o desafio em uma frase: "O maior problema nem sempre é a aplicação em si, mas a falta de informação no momento certo. Quando aumentamos a previsibilidade das operações e facilitamos essa comunicação, reduzimos riscos para os polinizadores sem comprometer a eficiência da produção", afirmou ao AgFeed.
Por que a mortandade de abelhas preocupa o agro
O problema que a AgSafe enfrenta tem dimensão nacional. Levantamento da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa) estima que cerca de 770 milhões de abelhas morreram no Brasil em apenas quatro anos, montante que pode ser ainda maior, já que boa parte dos casos não chega aos órgãos oficiais. Os pesquisadores acreditam que o número possa superar 1,5 bilhão de insetos.
O impacto vai muito além dos apiários. As abelhas são responsáveis pela polinização de dezenas de culturas agrícolas e sustentam um serviço ecossistêmico estimado em R$ 43 bilhões por ano no país. Em culturas como soja, café, maçã, laranja e diversas frutas, a presença dos polinizadores influencia diretamente a produtividade. Na soja, por exemplo, o período de floração concentra tanto a visitação das abelhas quanto janelas de aplicação de defensivos, o que torna o manejo ainda mais sensível.
Para o produtor, a decisão sobre quando pulverizar sempre envolveu variáveis como clima, vento e estágio da cultura. A novidade trazida pela AgSafe é incluir os apiários nessa equação e transformar a comunicação em ferramenta de gestão.
A polinização é um serviço invisível, mas essencial, para o rendimento das lavouras. Quando as colmeias são atingidas por uma aplicação mal planejada, a perda não fica restrita ao apicultor.
Como funciona o Coex.AI na prática
O Coex.AI é uma plataforma de gestão das pulverizações que integra informações de aplicações agrícolas, localização de apiários, condições operacionais e comunicação entre os envolvidos. Agricultores, prestadores de serviços e apicultores passam a ter mais previsibilidade sobre as atividades realizadas na propriedade, com todos os dados processados por uma inteligência artificial proprietária, segundo Maicon Romera.
A IA cruza três blocos principais de informação: o defensivo que será utilizado, as condições meteorológicas e a localização dos apiários cadastrados. Se houver risco para as colmeias, o apicultor recebe uma notificação antecipada e pode adotar medidas preventivas, como o fechamento temporário das caixas durante o período da pulverização.
"Se o apicultor recebe a notificação de que, por exemplo, às 9h de amanhã, uma aplicação está programada, ele tem o poder de simplesmente fechar a colmeia e evitar a mortandade de abelhas", explica Romera.
Do lado do agricultor, a plataforma entrega recomendações sobre condições de vento, clima e demais parâmetros técnicos que reduzem as chances de deriva, termo usado quando o defensivo é levado para fora da área de aplicação. Depois da operação, todo o processo fica registrado, formando um histórico de rastreabilidade das aplicações que pode ser consultado a qualquer momento.
Na prática, o Coex.AI organiza informações que já existem na operação: qual produto será aplicado, em qual área, com qual previsão do tempo e onde estão as colmeias. O ganho está em reunir tudo em um só lugar e gerar alertas automáticos antes do momento crítico.
Prestadores de serviço também ganham com a previsibilidade, pois conseguem planejar as janelas de aplicação e evitar deslocamentos perdidos por condições climáticas desfavoráveis. Com o histórico registrado, o produtor pode revisar o que funcionou e ajustar o planejamento das próximas safras.
Coexistência entre lavoura e apiário: o argumento da AgSafe
O nome Coex não foi escolhido ao acaso. "Simboliza que existe a possibilidade de coexistência das duas práticas. O sojicultor está aplicando o defensivo para garantir a sua produtividade. E o apicultor também quer garantir a produtividade dele. Na prática, a ferramenta quer ser uma solução para as duas pontas", afirma Maicon Romera.
A lógica por trás da plataforma é tratar a pulverização como uma operação planejada e comunicada, em vez de um evento isolado. O apicultor ganha tempo para proteger as colmeias, o produtor ganha previsibilidade e reduz perdas de defensivo por condições desfavoráveis, e os polinizadores ficam preservados para continuar contribuindo com a produtividade das lavouras do entorno.
A proposta é uma alternativa ao cenário de conflito que surge quando uma aplicação atinge colmeias próximas sem aviso prévio. Com comunicação antecipada, o apicultor deixa de ser pego de surpresa e o produtor reduz o risco de prejuízo para a própria lavoura.
Onde a AgSafe já testa a tecnologia
A AgSafe mantém projetos-piloto em diferentes estágios que integram apicultores e produtores de soja no Rio Grande do Sul, no Paraná e no Mato Grosso do Sul. Além da soja, a empresa trabalha em parceria com indústria do segmento de insumos, agroindústria e usina de cana-de-açúcar, cujos nomes não podem ser divulgados por questões contratuais, segundo Romera.
Os primeiros projetos conduzidos no Sul do Brasil tiveram resultados positivos, de acordo com a AgSafe. A agtech afirma que lavouras de soja localizadas próximas a apiários preservados registraram incremento de produtividade, enquanto as colmeias instaladas nessas regiões apresentaram aumento na produção. Em outras palavras, o cuidado com o polinizador aparece no resultado econômico das duas atividades.
O que a IA muda na relação entre produtor e polinizador
A contribuição da AgSafe é atacar o elo mais frágil da cadeia: a comunicação. O produtor precisa aplicar no momento certo, e o apicultor precisa saber disso com antecedência. A IA proprietária do Coex.AI atua exatamente nesse ponto, antecipando riscos e organizando a operação para que os dois lados saiam ganhando.
Se o levantamento da Ufersa mostra um problema de escala nacional, o Coex.AI busca resolver a ponta mais imediata: o alerta antes da aplicação. Os projetos-piloto no Rio Grande do Sul, no Paraná e no Mato Grosso do Sul indicam que a ideia já saiu do papel e começa a gerar resultados medidos em produtividade, tanto na lavoura quanto no apiário. Para o produtor interessado em adotar esse tipo de solução, a recomendação prática é mapear os apiários próximos da propriedade e incluí-los no planejamento das pulverizações, como propõe a AgSafe.











