Governança deficiente é o fator mais subestimado nas crises do agro
O agronegócio brasileiro responde por cerca de 24% do PIB e ultrapassa US$ 150 bilhões em exportações anuais, segundo dados do Cepea e da CNA. Apesar desse porte, os pedidos de recuperação judicial dos produtores rurais que atuam como pessoa jurídica registraram 753 solicitações em 2025, contra 409 em 2024, um aumento de 84,1% na comparação anual, de acordo com levantamento da Serasa Experian. A leitura mais imediata atribui o movimento a clima adverso, juros elevados e volatilidade das commodities, mas o artigo do AgFeed aponta que a governança deficiente é o fator mais subestimado por trás da incapacidade de reação das empresas.
Por que a governança é o elo mais fraco nas crises do agro?
O artigo destaca um padrão recorrente nas empresas que chegam à recuperação judicial: crescimento acelerado sem o amadurecimento das estruturas de decisão. Expansões financiadas por dívida, baixa utilização de instrumentos de hedge e ausência de monitoramento contínuo de caixa formam uma combinação conhecida. No agro brasileiro, a governança é, em sua maior parte, familiar. Onde faltam protocolos e conselhos, os papéis dentro da empresa ficam indefinidos. Em momentos de normalidade, isso é ruído. Em momentos de pressão sobre caixa e custos operacionais, vira impasse. Muitas dessas empresas sequer têm uma estrutura formal de supervisão, o que equivale a não operar em um setor que se move em ciclos semanais e, às vezes, diários.
Pressão sobre custos: o cenário que expõe a fragilidade
Segundo a Conab, o custo operacional da soja e do milho apresentou elevação acumulada relevante nos últimos ciclos, com destaque para fertilizantes e defensivos, impactados pelo câmbio e pela dependência de importações. O mercado de fertilizantes iniciou 2026 com alta: a ureia alcançou US$ 710 por tonelada CFR Brasil, alta de 50% em 30 dias e de 89% em relação a 2025. O MAP (fosfatado) subiu para US$ 850 por tonelada (+17% no último mês), enquanto o KCl (potássio) permaneceu relativamente estável, ao redor de US$ 383 por tonelada. O diesel, principal insumo energético do agro, atingiu seu maior preço desde 2022, com média de R$ 7,26 por litro na semana iniciada em 15 de março, segundo a ANP. O combustível responde por parcela significativa dos custos logísticos, e em algumas cadeias o frete pode representar mais de 20% do custo total. Esse conjunto comprime margens e aumenta a dependência de crédito.
Frequência de revisão de números: do detalhe operacional à questão de sobrevivência
O artigo do AgFeed argumenta que a frequência com que uma empresa revisa seus números deixou de ser detalhe operacional. Preços internacionais mudam rápido. Custos de insumos seguem o câmbio. Decisões de plantio e comercialização não esperam o próximo trimestre. Quando os números finalmente chegam à mesa, a deterioração já aconteceu. Empresas que adotam revisões mensais, ou mais frequentes, conseguem identificar desvios antes que se tornem críticos. A ausência desse monitoramento, combinada com a falta de estruturas formais de governança, transforma choques externos em crises internas que muitas vezes levam à recuperação judicial.
A pergunta central, segundo o artigo, não é por que o agro enfrenta dificuldades, mas sim por que tantas empresas não conseguem reagir a elas. A resposta está não apenas na economia, mas na governança.




